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sexta-feira, maio 22, 2009

A Rave da Vovó




Vejam esse vídeo e opinem. O que a vovó está fazendo???
 

a) Dando um exemplo de vitalidade e mostrando que idade não é obstáculo para quem quer se divertir.

b) Mostrando que tomou, por engano, os “comprimidos” no neto.

c) Pedindo, em vão, para esses delinquentes abaixarem o volume desse negócio que eles chamam de música enquanto um fanfarrão a filma para fazer sucesso como “A Vovó Techno do Youtube”.

sexta-feira, maio 08, 2009

Fui demitido. Justa causa.

Como estagiário, aprendi milhões de coisas e fui muito bem sucedido nas
minhas funções. Juro que não entendo o porquê de me demitirem...

Eu tinha várias funções que fazia com excelência, entre elas:

1. Tirar xerox. 3.1 segundos por página.

2. Passar café.

3. Comprar cigarro e pão. 1 minuto e 27 segundos. Ida e volta.

4. Fazer jogos na Mega-Sena, Dupla-Sena, Lotofácil, Loteria Esportiva...

Eu era muito bom. Mesmo. Fazia tudo certinho, até que peguei uma certa
confiança com o pessoal e resolvi fazer uma brincadeirinha inocente.

É impressionante o nível de stress em um ambiente de trabalho.

Quis dar uma amenizada na galera, deixar o povo feliz e fui recompensado com
uma bela de uma demissão por justa causa. Puta sacanagem!

Vou contar toda minha rotina desse dia catastrófico.

Era quinta-feira, 26 de março, quando cheguei ao trabalho.

Nesse dia, passei na padaria no meio do caminho. Demonstrando muita  pro
atividade, comprei pão e 3 Marlboro. Já queria ter na mão sem nem mesmo me
pedirem. Quando abri a agência (sim, me   deixam com a chave porque o
pessoal só começa a chegar lá pelas 11h), já vi uma montanha de folhas para
eu xerocar na minha mesa. Xeroquei tudo, fiz café e deixei tudo nos trinques
(minha mãe que usa essa gíria rs).

Como tinha saído um pouco mais cedo no outro dia, deixaram um recado na
minha mesa: "pegar o resultado da mega-sena na lotérica".

Como tinha adiantado tudo, fui buscar o resultado. No meio do caminho, tive
a ideia mais genial da minha vida e, consequentemente, a mais estúpida.

Peguei o resultado do jogo: 01/12/14/16/37/45. E o que fiz? Malandro que
sou, peguei uns trocados e fiz uma aposta igual a essa.

Joguei nos mesmos números, porque, na minha cabeça claro, minha brilhante
ideia renderia boas risadas. Levei os 2 papeizinhos (o resultado do sorteio
e minha aposta) para a agência novamente.

Ainda ninguém tinha dado as caras. Como sabia onde o pessoal guardava os
papeis das apostas, coloquei o jogo que fiz no meio do bolinho e deixei o
papel do resultado à parte.

O pessoal foi chegando e quase ninguém deu bola pros jogos. Da minha mesa,
eu ficava observando tudo, até que um cara, o Daniel, começou a conferir.

Como eu realmente queria deixar o cara feliz, coloquei a aposta que fiz
naquele dia por último do bolinho, que deveria ter umas 40 apostas.

Coitado, a cada volante que ele passava, eu notava a cara de desolação dele.
Foi quando ele chegou ao último papel.

Já quase dormindo em cima do papel,vi ele riscando 1, 2, 3, 4, 5, 6 números.
Ele deu um pulo e conferiu de novo.

Esfregou os olhos e conferiu de novo, hahahaha. Tava ridículo, mas eu tava
me divertindo.

Deu um toque no cara do lado, o Rogério, pra conferir também.

Ele olhou, conferiu e gritou:

 -"PU TA QUE PARRRRRRRRIUUUUUUUUUU, TAMO RICO, POR RA". Subiu na mesa,
abaixou as calças e começou a fazer girocóptero com o pau.

Óbvio que isso gerou um burburinho em toda a agência e todo mundo veio ver o
que estava acontecendo.

Uns 20 caras faziam esse esquema de apostar conjuntamente. 8 deles, logo que
souberam, não hesitaram: correram para o chefe e mandaram ele tomar bem no
olho do cu e enfiar todas as planilhas do Excel na bunda da mulher dele.

No meu canto, eu ria que nem um filho da puta. Todos parabenizando os
ganhadores (leia-se: falsidade reinando, quero um pouco do seu dinheiro),
com uns correndo pelados pela agência e outros sendo levados pela ambulância
para o hospital devido às fortes dores no coração que sentiram com a
notícia.

Como eu não conseguia parar de rir, uma vaquinha veio perguntar do que eu
ria tanto. Eu disse:

- puta merda, esse jogo que ele conferiu eu fiz hoje de manhã.

A vaca me fuzilou com os olhos e gritou que nem uma puta louca:

 -"PAREEEEEEEEEEM TUDO, ESSE JOGO FOI UMA MENTIRA.UMA BRINCADEIRA DE MAU
GOSTO DO ESTAGIÁÁÁÁÁÁÁRIO"

Todos realmente pararam olhando pra ela. Alguns com cara de "quê?" e  outros
com cara de "a cala boca ela tá brincando".

O cara que tava no bilhete na mão, cujo nome desconheço, olhou o papel e viu
que a data do jogo era de 27/03.

O silêncio tava absurdo e só eu continuava rindo. Ele só disse bem baixo:

- É...é de hoje.

Nesse momento, parei de rir, porque as expressões de felicidade mudaram para
expressões de 'vou te matar'.

Corri... corri tanto que nem quando eu estive com a maior caganeira do mundo
eu consegui chegar tão rápido ao banheiro.

Me tranquei por lá ao som de "estagiário filho da puta", "vou te matar" e
"vou comer teu cu aqui mesmo". Essa última foi do peladão !

Eu realmente tinha conseguido o feito de deixar aquelas pessoas com corações
vazios, cheios de nada, se sentirem feliz uma vez na vida.

Deveriam me dar uma medalha por eu conseguir aquele feito inédito. Mas
não... só tentaram me linxar e colocaram um carimbo gigante na minha
carteira de trabalho de demissão por justa causa. Belos companheiros!

Pelo menos levei mais 8 neguinho comigo ! Quem manda serem mal educados com
o chefe. Eu não tive culpa alguma na demissão deles.

Pena que agora eles me juraram de morte...agora tô rindo de nervoso.

Falei aqui em casa que fui demitido por corte de verba (consegui justificar
dizendo que mandaram mais 8 embora, rs) e que as ligações que tenho recebido
são meus amigos da faculdade passando trote.

Eu supero isso vivão e vivendo, tenho certeza.

É, amigos, descobri com isso que não se pode brincar em serviço mesmo...
Bruno Motta domingo em Curitiba! E ainda: SJ dos Campos, Maceió, Blumenau, Brasília... 

Em cartaz com os espetáculos ImproRiso e Seleção do Humor Stand Up no Teatro Folha e depois de participações em programas como Altas Horas, Fantástico, Show do Tom e vários outros, nosso intrépido humorista vai viajar bastante com seu novo solo "!"... Fique ligado nas datas e nos lugares e não perca.

Ah, nessa sexta, no 
ImproRiso, além de mim, da apresentação de Nany People e dos melhores humoristas stand up, vai ter também a participação especial do Otávio Mesquita. É no Café Paon, na Av. Pavão 950 em Moema. Bem divertido, não percam!

DOM, 10 MAIO
EM CURITIBA
Apresentação do solo "!" na Mostra Brasileira de Stand Up 
Mostra Brasileira de Stand Up.
Teatro Regina Vogue, Domingo, às 21hs. Mais info no 
site.

SAB, 23 MAIO
S. J. DOS CAMPOS
É o 
ImproRiso em S. J. dos Campos, com Bruno Motta, Nany People e Fábio Rabin!
No Espaço Cassiano Ricardo 1983, 19hs. Mais info no 
site.

DOM, 24 MAIO
MACEIÓ
Maratona de Humor: vai ter eu, Murilo Gun (Faustão) e Marcos Zenni (Programa do Jô) e ainda convidados surpresa. Imperdível!
Vai ser no Centro de Convenções/Teatro Gustavo Leite, na Rua Celso Piatti. Mais info no site: 
site. 

Peraí... o espetáculo se chama "!"? Mas como se pronuncia isso?
Nem a gente sabe! Essa é a brincadeira. "!" simboliza a piada, idéia, o microfone, o pedestal... e como você diria para os seus amigos o nome do espetáculo?

EM BREVE: No Bar Bareco em BLUMENAU, no Fest Riso em BRASÍLIA, Florianópolis, Belo Horizonte e outros... Fique ligado no site 
brunomotta.com.br para saber as novidades!



Tabela Internacional de Graduação de Macho 
 
1 - ESPORTES 

a.. Futebol, automobilismo, esportes radicais =
  MACHO 
b.. Boliche, voleibol =  TENDÊNCIAS GAYS 
c.. Aeróbica, spinning =  GAY 
d.. Patinação no Gelo, Ginástica Olímpica =  BICHONA 
e.. Os mesmos anteriores, usando short de lycra =  BICHONA LOUCA 

2 - COMIDAS

a.. Capivara, javali, comida muito apimentada =  CONAN 
b.. Churrasco, Massas, Frituras = MACHO 
c.. Peixe e salada = 
FRESCO 
d.. Sanduíches integrais = 
GAY
e.. Aves acompanhadas de vegetais cozidos no vapor =  BICHA ASSUMIDA 

3 - BEBIDAS 

a.. Cachaça, cerveja, whisky = 
MACHO 
b.. Vinho, vodka = HOMEM 
c.. Caipifruta = GAY 
d.. Suco de frutas normais e licores doces =MUITO GAY 
e.. Suco de açaí, carambola, cupuaçu, com adoçante =  PERDIDAMENTE GAY 

4 - HIGIENE

a.. Toma banho rápido, usa sabão em barra =
LEGIONÁRIO 
b.. Toma banho rápido, usa xampu e esquece das orelhas ou do pescoço = MACHO 
c.. Toma banho sem pressa e curte a água =HOMEM
d.. Demora mais de meia hora e usa sabonete líquido = TENDÊNCIAS GAYS PREOCUPANTES 
e.. Toma banho com sais e espuma na banheira =VIADAÇO SEM CURA

5 - CERVEJA

a.. Gelada e em grandes quantidades =
DESTROÇADOR 
b.. Só cervejas extra, premium e importadas =
HOMEM  FINO DEMAIS 
c.. Só uma às vezes para matar a sede = BICHICE SOB CONTROLE 
d.. Com limão e guardanapo em volta do copo =BICHA 
e.. Sem álcool = GAZELA SALTITANTE 

6 - PRESENTES QUE GOSTA DE GANHAR

a.. Ferramentas = OGRO 
b.. Garrafa de whisky =  MACHO 
c.. Eletrônicos, informática, roupas de homem =HOMEM MODERNO 
d.. Flores = 
VIADO  
e.. Velas aromáticas, perfumes,doces caramelados, bombons = DONZELA VIRGEM 

7 - CREMES 

a.. Só creme dental = 
GORILA 
b.. Protetor solar só na praia e piscina = HOMEM MODERNO 
c.. Usa cremes no verão =
  BICHA FRESCA 
d.. Usa cremes o ano todo =
  BICHONA TOTAL 
e.. Não vive sem hidratante =  CONSTA NA FILA DE ESPERA DA OPERAÇÃO PRA TROCA DE SEXO 

8 - ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

a.. Só dinossauros =
BRUTO   
b.. Tem um vira-lata que come restos da comida = 
HOMEM 
C.. Tem cão de raça que só vive dentro de casa e come ração especial = BICHA 
d.. O cão de raça dorme na sua própria cama =BICHONA TOTAL 
e.. Prefere gatos = TOTALMENTE  PASSIVA

9 - PLANTAS 

a.. Nem pra comer = 
TROGLODITA 
b.. Come algumas de vez em quando = 
RAMBO 
c.. Tem umas no quintal, mas nem são regadas =HOMEM 
d.. Tem plantinhas na varanda do apartamento =
VIADO 
e.. Rega, poda e conversa com as flores do jardim = 
BICHONA PERDIDA 

10 - RELAÇÃO  COM  ESPELHO 

a.. Não usa = 
VIKING 
b.. Usa para fazer barba = 
MACHO 
c.. Admira sua pele e observa seus músculos =
GAY
d.. Idem c, e ainda analisa a bunda = LOUCA 
e.. Admira-se com diferentes camisas e penteados = TRAVECO 

11 - PENTEADO
a.. Não se penteia ou rapa tudo = SELVAGEM 
b.. Só se penteia pra sair à noite = 
HOMEM 
c.. Penteia-se várias vezes ao dia =  FRESCO 
d.. Pinta o cabelo =  BICHONA TOTAL
e.. Dá conselhos de penteados =  BELA ADORMECIDA

quinta-feira, abril 09, 2009

Entre a crise e o espectro do humor a favor
Diogo Salles 
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Eu ainda não era nascido, mas me contaram que o início dos anos 70 foi a época do tal do "milagre econômico". Época em que faltava humor, mas sobrava ufanismo. Impulsionados pelo tricampeonato de 1970, os milicos lançaram mão da propaganda nacionalista para mover as massas e investiram maciçamente em bordões como "Brasil, ame-o ou deixe-o". Com taxas de crescimento superiores a 10% ao ano, o Brasil embarcava na farsa, enquanto os porões do DOI-CODI continuavam recebendo novos visitantes. Mas aí veio a crise do petróleo em 1973 e, ao enxertar os buracos dos "anos de chumbo" com o "milagre econômico", o país descobriu que o preço pela cegueira ufanista tinha sido alto. Altíssimo. 

Em 1985, o Brasil era outro. Tancredo Neves chegava ao poder e trazia consigo uma nova esperança com a redemocratização. O clima de euforia era de tal maneira incontrolável que ninguém notou que tanto deslumbramento nos conduzia a um espectro bastante temerário: o espectro do humor a favor. Mas não haveria tempo para isso, pois Tancredo nem chegaria ao dia da posse. Sir Ney ficou encarregado em trazer as más notícias a "brasileiras e brasileiros". A conta do "milagre econômico" dos gorilas fardados tinha chegado ― e o Brasil não tinha dinheiro para pagar. Convulsionados por uma inflação estratosférica, passamos a década inteira jogados à sorte de constantes trocas de moeda e planos econômicos aventureiros. 

Olhando hoje, aquela euforia se mostrava despropositada. Começando pelo próprio Tancredo, que só chegou ao poder através de um acordo tácito entre a ARENA e o PMDB. E depois porque seu governo não teria sido muito melhor do que foi o de Sir Ney. A verdade é que a redemocratização ainda engatinhava, e só começaria a andar de fato em 1989, com o voto. Ali, sim, éramos uma democracia e, com isso, o brasileiro se sentiu seguro para acreditar em salvadores da pátria. Outro dia, revi o último debate entre os candidatos de então, Collor e Lula, e uma questão voltou-me ao âmago. A certa altura, o jornalista Fernando Mitre indagou o candidato collorido, líder nas pesquisas, sobre uma reportagem que mostrava um brasileiro "humilde" decretando: "Collor vai mudar a nossa vida na primeira semana de governo". No fim, Collor fugiu da pergunta, ganhou a eleição e a resposta ao brasileiro "humilde" só viria muitas semanas depois, no primeiro impeachment de um presidente na história brasileira. Estaria aprendida a lição a todos os brasileiros (além do tal "humilde")? Ainda não. 

Nos anos 90, o Brasil de FHC surfaria na onda do otimismo mais uma vez. Com a inflação finalmente controlada e o dólar "um para um", as perspectivas eram as melhores possíveis. Com a "moeda forte" o brasileiro tinha cacife para consumir mais frango e iogurte. A confiança era tanta que abriu-se uma brecha para mudar a regra do jogo enquanto ele ainda era jogado. Com as crises dos Tigres Asiáticos, em 1997, e da Rússia, em 1998, vacas e frangos ficariam magros novamente para o Brasil, mas não impediria a reeleição de FH e um segundo mandato um tanto "apagado". Ao mesmo tempo, nossa fauna política protagonizava episódios pitorescos e ganhavam as manchetes: Jader Barbalho contra ACM; Francisco Lopes a favor de Salvatore Cacciola... E ele, a maior caixa-preta da história recente do Brasil: Daniel Dantas. 

Chegamos a 2002. Tempo das esperanças se renovarem para vencer o "medo". Com Lula lá, a ética finalmente definiria a agenda política. Quem acreditou nesse discurso deve ter se horrorizado com a esbórnia dos mensaleiros e com o cinismo (ou o silêncio) das antigas vestais petistas. Lula fingiu que não sabia de nada, o primeiro escalão do PT foi dizimado e o segundo escalão emergiu. Se o momento político era explosivo, a economia era um mar de águas cristalinas. O jeito era navegá-las rumo à reeleição, na canoa do Bolsa Família, que até mesmo Frei Betto acredita ser um instrumento eleitoral do projeto de poder do PT e de Lula. 

O segundo mandato de Lula (notadamente o ano de 2008) reproduziu ― com tintas parecidas, mas com cores muito mais vibrantes ― a marola ufanista de FHC e transformou-a em tsunami. Lula foi às alturas e o espectro do humor a favor voltou a assombrar a terra do "nunca antes nesse país". Pronto, o mensalão já fazia parte do passado. Longe de sermos uma sumidade em saúde ou em educação, continuamos ostentando a 80ª colocação no ranking da corrupção, heroicamente atrás da Namíbia e do Suriname... Ah, mas a economia "tá bombando", deixa isso pra lá, diziam os arrivistas da ocasião. Será? Na dúvida, pedi uma tequila com pré-sal e deixei a patrulha bradando retumbantemente para as paredes. Afinal, o Brasil estava próximo à perfeição... Ou melhor, estava perfeito. Se melhorasse, estragava. Pois bem, não melhorou... E estragou. Se após um período de prosperidade sempre vem uma crise, o Brasil, inserido no mercado globalizado (queiram ou não), sofreria com ela. 

Sim, a crise. Toda vez que ela nos circunda, os donos do poder sempre se prontificam a encontrar culpados (ah, como o brasileiro gosta de uma caça às bruxas!). Chega a ser ridículo o jeito que governo e oposição se comportam frente à crise atual. Se antes cada um reivindicava para si a paternidade (sem exame de DNA) de um Brasil próspero que nadava a braçadas rumo ao desenvolvimento, agora um empurra as mazelas da crise para o outro. Na bonança, os tucanos desfilavam em plumas com o controle da inflação e a estabilização da moeda. Agora apontam a incompetência e a ingerência do PT e de Lula pelo imobilismo. Já os petistas não vão muito além. Nos anos dourados, exaltavam a explosão do consumo e a facilidade do crédito pelo momento mágico que o Brasil viveu até ontem. Agora, culpam os brancos de olhos azuis, os EUA, a direita, a globalização, o imperialismo, o neoliberalismo, o capitalismo e todos os "ismos" pela fragilidade da nossa torre de babel. 

Em meio a tanta aridez, cabe aqui uma constatação, que só não é óbvia aos ideólogos e seus acólitos. O capitalismo não está em xeque, nunca esteve. É o neoliberalismo que viu o seu vinho virar vinagre. Aqui entre nós, era muita ingenuidade acreditar que os mercados se autorregulariam sozinhos, né não? Assim como é igualmente ingênuo acreditar que os corruptos estão apinhados somente no setor público. Pessoalmente, concordo com Ferreira Gullar, quando diz que o capitalismo é um fenômeno natural e amoral e que a melhor solução seria a "ganância do bem". Faça um favor a si mesmo: leia esse texto do Gullar e deixe os ideólogos lá, no século XX, discutindo sobre a "mão invisível" contra a "mão de ferro". 

Mas se de um lado a crise econômica afasta o espectro do humor a favor, de outro ela ressuscita outro vício brasileiro, igualmente perverso: a crença em salvadores da pátria. A pergunta de Fernando Mitre, feita em 1989, poderia ser refeita hoje, já que, neste exato momento, tem muita gente por aí achando que só José Serra será a salvação para o Brasil. Outros acreditam que Lula já é a salvação (com Dilma Rousseff a tiracolo). Enquanto se acusam mutuamente de uso eleitoreiro das obras de infraestrutura, ambos fazem o uso descarado da máquina pública ― Serra, na do governo estadual; Lula/Dilma, na do federal. 

Essa é maneira brazuca de encarar a crise econômica. Com chicanas políticas, interesses partidários, manobras eleitoreiras e retórica rasteira, sempre mirando a sucessão presidencial de 2010. De alguma forma, estas figuras tão ilustres hão de combater bravamente o desemprego, segurar as rédeas da inflação e liderar a cruzada das reformas que o Brasil tanto precisa e há décadas são prometidas (ironicamente por eles mesmos). Estranho ninguém falar de corrupção, de impunidade, de fisiologismo, do PMDB... Ah, quer saber? Vê aí mais uma tequila com bastante pré-sal... E não se fala mais nisso, ok? 

Quer dizer que só tenho críticas a tudo o que aconteceu no Brasil? Essa é uma pergunta que me fazem com frequência e aproveito para respondê-la aqui: não. Evoluímos muito do ponto de vista econômico, desde o Plano Real. Quem duvida, basta lembrar dos preços sendo remarcados todos os dias pela inflação dos anos 80/90. O Brasil virou o jogo. FHC começou, Lula continuou. Simples assim, porém incompreensível aos entusiastas da diatribe tucano-petista. Tanto o governo FHC quanto o de Lula mostraram que, bem ou mal, a economia brasileira continua andando, apesar de todos os bilhões jogados, ano a ano, no ralo da corrupção ― corrupção que, diga-se, sempre contou com a complacência de ambos. Se ontem a economia esteve bem e hoje ela vai mal, não é por causa do Lula, nem apesar do Lula. Muita coisa aconteceu para que chegássemos ao estágio atual e a economia se move muito mais pelas leis do temido e volátil "mercado globalizado" do que pela boa vontade do presidente (mesmo que seus índices de popularidade oscilem junto com os números do PIB). 

O que falta ao Brasil é esquecer os proselitismos e encarar os problemas de frente. Sem demagogias, sem máscaras. É por isso que, por maior que seja a crise econômica de agora, nossa eterna crise será sempre política. Na economia de hoje, a crise pode ser vista por duas vias. De um lado, a preocupação com o emprego e com a renda. De outro, um ensejo para despontar novos empreendedores, que sabem enxergar oportunidades em tempos difíceis. Se existe mesmo uma "ganância do bem", chegou o momento de testá-la. Por ora, continuamos esperando que a crise volte a ser só uma "marolinha". Porque senão, companheiro, nóis sifu... 


Diogo Salles
São Paulo, 7/4/2009
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